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Ansiedade: quando ela deixa de ser uma reação natural e passa a causar sofrimento?

Foto do escritor: Eduardo Mendes
Eduardo Mendes
5 de ago.
3 min de leitura

A ansiedade costuma ser vista como algo exclusivamente negativo. Expressões como "estou muito ansioso" ou "preciso acabar com a ansiedade" fazem parte do cotidiano de muitas pessoas. No entanto, do ponto de vista da Psicologia e das Neurociências, a ansiedade não é uma doença em si. Ela é uma emoção natural e exerce um papel importante na adaptação humana.


Sentir ansiedade antes de uma entrevista de emprego, de uma prova importante ou de uma apresentação em público é esperado. Nesses momentos, o organismo se prepara para lidar com uma situação percebida como desafiadora, aumentando o estado de atenção, a concentração e a prontidão para agir. Em muitas circunstâncias, essa resposta contribui para o desempenho e para a proteção diante de possíveis ameaças.


O problema surge quando essa reação deixa de ser proporcional ao contexto e passa a ocorrer com frequência, intensidade ou duração que geram sofrimento e prejuízo na vida cotidiana. A pessoa pode começar a evitar situações, ter dificuldades para trabalhar, estudar, descansar ou manter seus relacionamentos. Nesses casos, a ansiedade deixa de cumprir uma função adaptativa e pode estar relacionada a um transtorno de ansiedade, cuja avaliação deve ser realizada por um profissional qualificado.


Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5-TR), os transtornos de ansiedade compartilham características como medo e ansiedade excessivos, acompanhados por alterações comportamentais que interferem no funcionamento da pessoa. É importante destacar que sentir ansiedade não significa, por si só, ter um transtorno psicológico. A intensidade, a frequência, o contexto e o impacto na vida diária são aspectos fundamentais para essa diferenciação.


O que é ansiedade?

A ansiedade é uma resposta emocional voltada para situações percebidas como futuras ou incertas. Diferentemente do medo, que geralmente ocorre diante de um perigo imediato e identificável, a ansiedade está relacionada à antecipação de eventos que ainda podem acontecer. Essa capacidade de antecipar cenários faz parte do funcionamento humano e pode contribuir para o planejamento, a prevenção de riscos e a tomada de decisões.


Do ponto de vista evolutivo, essa resposta foi essencial para a sobrevivência da espécie. Nossos ancestrais que conseguiam identificar sinais de perigo e se preparar rapidamente tinham maiores chances de proteção diante de ameaças ambientais. Embora o contexto atual seja muito diferente, o organismo continua utilizando mecanismos semelhantes para responder a situações interpretadas como potencialmente ameaçadoras.


Quando percebemos uma ameaça, o cérebro aciona sistemas responsáveis pela resposta de luta, fuga ou congelamento. O organismo libera substâncias como adrenalina e cortisol, aumentando a frequência cardíaca, a tensão muscular e o estado de alerta. Essas mudanças são úteis em situações de risco real, mas podem se tornar desgastantes quando ocorrem repetidamente diante de preocupações constantes ou interpretações excessivamente ameaçadoras da realidade.


Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), não são apenas os acontecimentos que influenciam nossas emoções, mas principalmente a maneira como interpretamos esses acontecimentos. Pessoas diferentes podem vivenciar a mesma situação de formas distintas porque possuem histórias, crenças e padrões de pensamento diferentes. Assim, compreender essas interpretações é uma parte importante do processo terapêutico.


Essa compreensão é um dos pilares da TCC e ajuda a explicar por que algumas pessoas desenvolvem níveis elevados de ansiedade diante de situações que, para outras, parecem administráveis. O objetivo da psicoterapia não é eliminar completamente a ansiedade, uma emoção natural e necessária, mas ajudar a pessoa a desenvolver formas mais flexíveis e adaptativas de lidar com seus pensamentos, emoções e comportamentos.


Ansiedade é diferente de transtorno de ansiedade?

Uma dúvida frequente é se sentir ansiedade significa ter um transtorno de ansiedade. A resposta é não.

A ansiedade é uma emoção humana universal. Todos nós a experimentamos em diferentes momentos da vida. Ela pode até ser desconfortável, mas nem sempre representa um problema de saúde mental.


Os transtornos de ansiedade, por outro lado, caracterizam-se por níveis persistentes e desproporcionais de ansiedade e medo, que causam sofrimento significativo ou prejuízo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes da vida. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica realizada por um profissional habilitado, considerando diversos critérios, e não apenas a presença de sintomas isolados.


Por isso, sentir ansiedade ocasionalmente não deve ser motivo para autodiagnóstico. Da mesma forma, minimizar um sofrimento intenso também pode atrasar a busca por ajuda. Quando a ansiedade passa a interferir na rotina, nas relações ou na qualidade de vida, é recomendável procurar avaliação psicológica.


Referências utilizadas

  • American Psychiatric Association. (2022). Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (5ª ed., texto revisado – DSM-5-TR).

  • Beck, J. S. (2022). Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática (3ª ed.). Artmed.

  • Barlow, D. H. (2002). Anxiety and Its Disorders: The Nature and Treatment of Anxiety and Panic (2nd ed.). Guilford Press.

 
 
 

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